Descobrir a gravidez é um turbilhão. A gente sente uma alegria imensa, um medo do desconhecido e, para nós que somos viciadas na endorfina da areia, bate aquela dúvida cruel: “Vou ter que parar de jogar?”.
Eu já vi essa cena na minha arena dezenas de vezes. A jogadora chega com o exame na mão e a raquete na outra, sem saber se entra em quadra ou se vai para o banco de reservas pelos próximos nove meses.
A verdade, conversada abertamente entre obstetras atualizados e preparadores físicos em 2025, é animadora: na maioria dos casos, a gravidez não é uma sentença de sedentarismo.
Pelo contrário. O beach tennis, se praticado com as adaptações corretas, pode ser o melhor amigo da gestante. Mas, vamos ser sinceras: o jogo muda. A prioridade deixa de ser a bola “no buraco” e passa a ser a segurança de dois corações batendo no mesmo corpo.
Grávida pode jogar Beach Tennis? O que diz a ciência
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- Grávida pode jogar Beach Tennis? O que diz a ciência
- Benefícios da prática durante a gestação
- Riscos e contraindicações: Quando pendurar a raquete
- Adaptações necessárias por trimestre
- O mito da Diástase e o saque
- Dicas de Segurança: O “Invisível” que Protege
- Equipamentos Essenciais: O Upgrade da Gestante
- Perguntas Frequentes (FAQ)
- Conclusão

A resposta curta é: depende do seu histórico.
A regra de ouro da medicina esportiva obstétrica é a continuidade. Se você já era uma “rateira de praia”, que jogava três vezes na semana, seu corpo está adaptado àquele esforço. A gravidez não é o momento de começar um esporte novo e intenso, mas é perfeitamente possível manter uma atividade que seu corpo já domina.
Para quem é sedentária e decidiu começar agora: pare. A areia exige um esforço cardiovascular e de equilíbrio que não é compatível com o início de uma gestação sem base física anterior. Para as veteranas, o sinal verde costuma vir, mas com restrições claras.
Benefícios da prática durante a gestação
Não é teimosia continuar jogando; é saúde. Manter-se ativa na areia traz vantagens fisiológicas que a caminhada na esteira não entrega.
Controle de peso e prevenção de diabetes
O beach tennis é um intervalado disfarçado. A gente corre, para, respira, saca. Esse ritmo mantém o metabolismo acelerado, ajudando a controlar o ganho de peso excessivo, que é o gatilho para a diabetes gestacional e pré-eclâmpsia.
Drenagem linfática natural
Sabe aquele inchaço de “pãozinho” no pé que aparece no final do dia? A areia ajuda a combater. O movimento de afundar e impulsionar o pé na areia fofa funciona como uma bomba de retorno venoso.
A contração da panturrilha empurra o sangue de volta para cima, reduzindo o edema nas pernas de forma muito mais eficiente que a hidroginástica.
Saúde mental e a “Tribo”
A gestação pode ser solitária. Os hormônios bagunçam a cabeça, a ansiedade bate. Ir para o “play”, ver as amigas, dar risada de um erro bobo e focar na bolinha é terapêutico. Manter a identidade de “jogadora” ajuda a mulher a não se sentir apenas uma “incubadora”. O convívio social na arena é um antidepressivo natural.
Riscos e contraindicações: Quando pendurar a raquete
Apesar dos benefícios, não dá para romantizar. O beach tennis tem riscos específicos que não existem na yoga ou no pilates.
O perigo das quedas e a mudança de eixo
Esse é o maior vilão. Conforme a barriga cresce, seu centro de gravidade muda para frente. O que seu cérebro entende como equilíbrio, seu corpo já não responde igual. A areia fofa, que é ótima para impacto, é traiçoeira para torções. Uma queda de barriga no chão (trauma direto) pode causar descolamento de placenta, algo gravíssimo. Por isso, a regra é: sem peixinho, sem mergulho. Bola difícil é bola perdida.
Hipertermia (O superaquecimento)
No primeiro trimestre, o feto é muito sensível ao calor. Jogar ao meio-dia, num verão de 35 graus, eleva sua temperatura corporal interna. Se você passar de 38°C ou 39°C, há risco de má formação neural no bebê. A “vibe” do beach tennis é sol, mas para a gestante, o melhor horário é antes das 9h ou à noite.
Contraindicações absolutas
Se o seu médico citar qualquer um desses termos, o beach tennis está proibido:
- Placenta prévia.
- Colo do útero curto (insuficiência istmo-cervical).
- Histórico de parto prematuro.
- Sangramentos ou “perdas” durante a gestação atual.
Adaptações necessárias por trimestre
O jogo evolui (ou involui) conforme o bebê cresce. Você precisa aceitar que sua performance vai cair, e tudo bem.
Primeiro trimestre: A cautela invisível
Você olha no espelho e nada mudou, mas por dentro está acontecendo a maior revolução. O risco de aborto espontâneo é maior até a 12ª semana.
- Adaptação: O foco é a frequência cardíaca. Não deixe o coração sair pela boca. Se ficou ofegante a ponto de não conseguir falar uma frase inteira, pare. O calor é o inimigo aqui. Hidratação dobrada.
Segundo trimestre: A fase dourada
Entre a 13ª e a 26ª semana, o enjoo passa e a energia volta. É a melhor fase para jogar.
- Adaptação: A barriga começa a pesar. Pare de saltar no smash. O impacto da aterrissagem sobrecarrega o assoalho pélvico, que já está segurando o peso do útero. Comece a jogar mais “plantada”, focando na mão e na colocação, e menos na correria.
Terceiro trimestre: Desacelerando
A partir da 27ª semana, o hormônio relaxina está no auge, deixando seus ligamentos frouxos para preparar o parto. O risco de torcer o tornozelo ou joelho é máximo.
- Adaptação: Muitas param aqui. Se continuar, é em ritmo de “caminhada com raquete”. Nada de correr para trás (risco de queda alto). O saque muda completamente para não forçar a lombar.
O mito da Diástase e o saque
Muitas grávidas continuam sacando forte por cima, e isso é um erro técnico grave. O movimento do saque (especialmente o kick ou com efeito) exige uma hiperextensão da coluna (envergar para trás) e uma contração violenta do abdômen para bater na bola.
Fazer isso repetidamente com o útero expandido força a linha alba (o meio da barriga), podendo causar ou piorar a diástase abdominal (o afastamento dos músculos).
- A solução: Mude para o saque por baixo ou um saque “colocado”, sem envergar as costas. Seu abdômen vai agradecer no pós-parto.
Dicas de Segurança: O “Invisível” que Protege
A gente se preocupa muito com a barriga, mas os maiores perigos no beach tennis para gestantes são invisíveis: a frequência cardíaca e a temperatura interna.
Monitoramento Cardíaco: Seu novo melhor amigo
Esqueça o placar do jogo; o número mais importante agora está no seu pulso.
- A Regra dos 140 bpm: Antigamente, dizia-se para não passar de 140 batimentos por minuto. Hoje, a medicina é mais flexível (fala-se em percepção de esforço), mas como jogadora, eu uso a regra do “teste da fala”. Se você não consegue conversar com sua parceira durante o ponto sem ficar ofegante, você passou do limite.
- O Relógio não mente: Use um smartwatch. Configure um alerta. Se o coração disparar, peça tempo. Não tenha vergonha de parar o jogo no meio. O bebê precisa de oxigênio estável.
O Sol é traiçoeiro
Grávida tem uma propensão maior a ter queda de pressão (hipotensão). O calor da areia dilata os vasos sanguíneos, e o sangue “desce”, faltando na cabeça.
- Horário de Vampira: Se antes você amava o sol do meio-dia, agora seu horário é antes das 9h ou depois das 17h.
- Resfriamento: Tenha sempre uma toalha molhada ou água gelada para jogar na nuca e nos pulsos nos intervalos. Isso ajuda a baixar a temperatura corporal rapidamente.
Equipamentos Essenciais: O Upgrade da Gestante
Seu corpo mudou, seu equipamento tem que mudar também.[1] Aquela raquete dura e pesada que você amava? Pode ser hora de aposentar ela temporariamente.
1. A Raquete “Anti-Impacto”
Na gravidez, as articulações ficam mais frouxas e propensas a tendinites.
- O que usar: Troque sua raquete de Carbono 12K ou 18K (que são rígidas) por uma de Fibra de Vidro ou Carbono 3K com miolo Soft.
- Por que? Elas absorvem muito mais a vibração da batida. O objetivo agora é conforto, não potência. Uma raquete mais leve (cerca de 310g-320g) também ajuda a não sobrecarregar o ombro.
2. Sapatilhas de Neoprene (Obrigatório!)
Eu considero esse item não negociável para grávidas.
- Estabilidade: A sapatilha dá uma “firmeza” extra no pé, ajudando a evitar aquela virada de tornozelo boba na areia fofa.
- Proteção Térmica: Pés quentes ou muito frios podem causar cãibras, e grávida já tem cãibra demais para lidar.
- Sensibilidade: Protege contra pedrinhas ou conchas que podem cortar o pé (e infecções na gravidez são um problema sério).
3. Vestuário de Sustentação
Jogar com a barriga balançando é desconfortável e pode causar dor nos ligamentos redondos (aqueles que seguram o útero).
- Bermudas de compressão: Use shorts ou leggings específicas para gestantes, com cós alto que sustenta a barriga.
- Top reforçado: Os seios crescem e ficam sensíveis. Um top de alta sustentação evita dor no impacto da corrida.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Grávida pode dar “peixinho” (mergulho) na areia?
Jamais. O trauma direto na barriga é o maior risco de descolamento de placenta. Bola que exige mergulho é bola perdida. Deixe cair e ria.
Posso jogar torneios amadores grávida?
Não recomendo. Em torneio, a adrenalina sobe e o instinto competitivo fala mais alto. Você vai acabar correndo uma bola que não devia. Fique nos jogos amistosos (“play”) onde você controla o ritmo.
O beach tennis causa diástase?
Se você fizer o movimento de saque errado (envergando as costas para trás e chicoteando o abdômen), sim, pode agravar. Mude para o saque por baixo ou saque colocado sem hiperextensão.
Até que mês posso jogar?
Não existe regra fixa. A maioria joga com conforto até a 28ª ou 30ª semana. O sinal de parar é o corpo: dor pélvica, falta de ar excessiva ou sensação de peso na bexiga.
A areia transmite doenças (toxoplasmose/bicho geográfico)?
Risco baixo em arenas tratadas, mas existe. Por isso, nunca sente direto na areia. Use sempre sua cadeira ou canga e lave bem as mãos após o jogo.
Iniciantes podem começar o beach tennis grávidas?
Melhor não. O risco de queda é maior quando você ainda não domina a movimentação na areia. Espere o bebê nascer e comece no pós-parto como forma de voltar à forma.
Conclusão
Jogar beach tennis grávida é um exercício de amor duplo: amor pelo esporte e amor pelo bebê. É o momento de trocar a competitividade pela conexão. Você não está lá para ganhar o ponto, está lá para celebrar o que seu corpo é capaz de fazer.
Se o seu médico liberou e você se sente bem, aproveite cada minuto na areia. Vai chegar o dia (logo, logo) em que você terá que parar por umas semanas. E quando voltar, já com o bebê no colo na beira da quadra, vai ver que o beach tennis foi fundamental para manter sua sanidade e sua força física nessa jornada incrível. Bom jogo, mamãe!










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